Notas técnicas, pareceres e relatórios públicos costumam ser escritos em um vocabulário próprio da área: termos jurídicos, orçamentários, sanitários, de engenharia. A tentação é achar que esse vocabulário passa seriedade e que explicar em linguagem comum seria perder precisão. Em julho de 2025, a revista Nature publicou um texto, Scientific jargon can be satisfying, but misleading, em que consta Todd Rogers, da Harvard Kennedy School (HKS), que discute exatamente esse dilema para quem comunica ciência ao grande público.
A ideia em resumo
O texto trata do dilema de quem escreve para leigos: usar termos técnicos, que sinalizam conhecimento, ou linguagem simples, mais fácil de acompanhar. Ele apresenta um estudo de Cruz e Lombrozo, publicado na Nature Human Behaviour, que examinou essa escolha. O título do texto sugere a conclusão: o jargão pode ser satisfatório para o leitor, mas induzir ao erro.
O que a pesquisa mostrou
De acordo com o resumo disponível na página, o estudo reuniu nove experimentos on-line com cerca de 6.700 participantes. Os participantes liam explicações que variavam em dois aspectos: o raciocínio era circular ou completo, e as palavras eram simples ou cheias de jargão. Depois, avaliavam cada texto em três dimensões, que o resumo não nomeia. Segundo o resumo, o jargão influenciou a forma como os leitores julgaram e entenderam as explicações, com implicações tanto para quem lê quanto para quem comunica ciência. A página não informa os resultados específicos por dimensão, e por isso este texto não os afirma.
Como aplicar no Brasil
Mesmo sem conhecer os resultados detalhados, a mensagem do resumo já é um alerta útil: um texto cheio de termos técnicos pode parecer mais convincente sem ser mais claro, e um leitor pode sair com a impressão de ter entendido sem ter entendido. Para um órgão público, isso importa porque o cidadão toma decisões com base no que lê. Algumas práticas:
- Faça um levantamento dos termos que mais aparecem. Reúna os termos técnicos de comunicados, decisões, notificações e relatórios e crie um glossário interno com versão em linguagem comum para cada um.
- Explique o raciocínio, e não só a conclusão. O estudo comparou explicações circulares e completas. Em uma decisão administrativa, por exemplo, diga qual regra se aplica, qual fato levou a ela e qual consequência prática resulta, em vez de repetir que algo foi indeferido por não atender aos requisitos.
- Mantenha o termo técnico quando ele for necessário, mas explique. Algumas expressões precisam constar por exigência legal. Nesse caso, apresente o termo e, logo depois, uma frase simples sobre o que significa.
- Teste a compreensão. Peça a alguns munícipes ou a servidores de outras áreas que leiam o texto e expliquem, com as próprias palavras, o que entenderam e o que fariam. Ajuste e teste de novo.
- Treine as equipes. Oficinas de reescrita de documentos reais, com antes e depois, mostram o ganho de clareza e criam o hábito.
Essa prática combina com a política de transparência e com a exigência de que a informação ao cidadão seja compreensível. A Lei de Acesso à Informação, a Lei 12.527/2011, prevê, no art. 5º, que o acesso à informação seja franqueado de forma transparente, clara e em linguagem de fácil compreensão, o que dá base legal à ideia.
Uma boa oportunidade de teste são as notificações de cobrança, as respostas a pedidos de acesso à informação e os comunicados de campanhas de saúde. São textos que chegam a muitas pessoas, têm uma ação esperada e permitem medir o efeito: quantas pessoas responderam, quantas ligaram para tirar dúvida, quantos recursos foram apresentados por falta de entendimento. Compare a versão antiga com a reescrita em um grupo menor antes de ampliar.
Cuidados e limites
O texto lido é um resumo, com poucas informações sobre os resultados, e o texto e o estudo original não foram lidos na íntegra. O experimento mediu a percepção de leitores em ambiente on-line, e não decisões reais de cidadãos diante de documentos oficiais. A simplificação não deve eliminar informações exigidas por lei, como fundamentos de decisão e prazos de recurso. Por fim, linguagem simples não é linguagem imprecisa: o objetivo é explicar bem, e não omitir. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.
Para aplicar o tema na rotina do órgão, veja o serviço de consultoria em linguagem simples, o de comunicação de políticas públicas e campanhas educativas e o curso de ouvidoria e Lei de Acesso à Informação.



