Prefeituras recorrem cada vez mais a alianças com empresas, universidades, fundações e organizações sociais para tratar de educação, segurança e desenvolvimento econômico. Os resultados variam muito. O artigo “Cross-Sector Collaboration in Cities: Learning Journey or Blame Game?”, de Santiago Pulido-Gómez, Jorrit de Jong (Harvard Kennedy School, HKS) e Jan Rivkin, saiu em 2025 no Journal of Public Administration Research and Theory e procura entender por que algumas parcerias entre setores dão certo e outras não.
A ideia em resumo
Segundo os autores, o fator decisivo é como a parceria reage aos contratempos. Quando os parceiros tratam o problema como comum, criam espaços para resolvê-lo juntos, antecipam os movimentos uns dos outros e redistribuem tarefas, a confiança aumenta. Quando cada um joga a responsabilidade no outro, vêm o desgaste, a inação e a perda de confiança. Os autores chamam os dois caminhos de laço de aprendizado mútuo e laço de culpa mútua.
O que a pesquisa mostrou
- Método. Estudo comparativo de nove colaborações em três cidades americanas (grandes, com prefeito forte) e três áreas: educação, segurança pública e desenvolvimento econômico. Usou 110 entrevistas individuais, nove entrevistas em grupo e documentos. Cada colaboração tinha entre três e sete anos e envolvia pelo menos dois setores.
- Todas começaram bem. Partiram de confiança e passaram ao compromisso e à ação. Os contratempos (saída de pessoas, corte de verbas, derrota em votação, abandono de parceiros) dividiram os caminhos. A maioria apresentou os dois padrões em momentos diferentes.
- Adaptar vale mais que o formato. Nenhum modo de governança (compartilhada, liderada por uma organização ou coordenada por uma entidade administradora) previu o sucesso. As menos bem-sucedidas nunca mudaram de modo; duas das três mais bem-sucedidas mudaram.
- Cinco ações favorecem o aprendizado: apoiar-se em relações anteriores; contar com uma pessoa de confiança que circule entre os setores; envolver a comunidade; usar dados e evidências; e investir de propósito na solução conjunta de problemas, com reuniões regulares.
- Exemplos. Em uma cidade, parceiros de segurança foram a reuniões comunitárias já existentes e usaram agentes de aproximação. Em outra, uma colaboração de desenvolvimento econômico usou dados para classificar projetos viários, o que deu respaldo político para resistir a pressões. O contraste apareceu em uma colaboração de educação que atendia só um dos muitos distritos escolares e perdeu a confiança de lideranças empresariais.
Os autores tiram três recomendações práticas: reforçar os cinco fatores desde o lançamento; discutir cedo a resposta aos contratempos e combinar um plano que promova o aprendizado, reconstrua a confiança e crie estruturas de resolução de problemas; e não procurar um modelo de governança perfeito, revisando se o atual ainda serve e estando pronto para mudá-lo.
Como aplicar no Brasil
- Combine, no início, como reagir aos problemas. Antes de assinar o instrumento da parceria, converse com os parceiros sobre o que fazer quando algo der errado: quem reúne os dados, quem convoca a reunião, como se redistribuem as tarefas.
- Escolha uma pessoa de confiança como ponte. Um articulador conhecido nos setores envolvidos mantém a confiança nas crises. Em consórcios e pactos regionais, designe um responsável formal.
- Use dados para decidir, não para acusar. Reuniões regulares com indicadores comuns ajudam a discutir o problema, e não os culpados. No estudo, dados deram respaldo a uma colaboração para resistir a pressões.
- Revise o arranjo de governança. Se a parceria emperrou, reavalie quem coordena e como se decide. As adaptações devem respeitar o instrumento firmado: com organização da sociedade civil, termo de colaboração, de fomento ou acordo de cooperação (sem repasse de recursos), pela Lei 13.019/2014; em convênios e acordos com outros entes, a Lei 14.133/2021 se aplica no que couber (art. 184); em contratos, a Lei 14.133 integralmente.
- Reserve tempo fixo para resolver problemas juntos. Os casos bem-sucedidos mantinham reuniões regulares, às vezes quinzenais ou semanais, que tiravam o grupo do improviso e o levavam à prevenção.
- Escute a comunidade. A participação serve para transformar confiança em ação e para dar legitimidade.
Cuidados e limites
A amostra é pequena e não aleatória: nove colaborações em três cidades americanas de mais de 100 mil habitantes, escolhidas entre prefeitos que participaram de um programa de liderança dos próprios autores. Os resultados vêm de entrevistas e documentos, e os autores reconhecem que o sucesso também pode facilitar a adaptação, e não só o contrário. Os achados são uma proposta teórica a ser testada, e não valem automaticamente para municípios brasileiros, nem para parcerias maduras ou de outros setores. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



