Coleção Escola de Governo
A Boa Notícia Não Chega Sozinha
Como a prefeitura transforma suas ações em pauta, prepara seus porta-vozes e atravessa crises com credibilidade
A Boa Notícia Não Chega Sozinha
Coleção Escola de Governo
- Aline Pinheiro
- Matheus Bernardo Delbon
A Boa Notícia Não Chega Sozinha
Como a prefeitura transforma suas ações em pauta, prepara seus porta-vozes e atravessa crises com credibilidade
1ª edição
Coleção Escola de Governo
Araraquara, 2026
© 2026 Instituto Evoluta. Todos os direitos reservados.
Evoluta Books é o selo editorial do Instituto Evoluta.
Material de apoio ao curso “Da Prefeitura para as Manchetes: como produzir conteúdo de interesse para a imprensa”, da Escola de Governo Evoluta, baseado nas aulas ministradas pelos autores. Curso livre de capacitação. Uso pessoal do aluno.
- Edição
- 1ª edição
- Autoria
- Aline Pinheiro e Matheus Bernardo Delbon
- Edição e projeto gráfico
- Evoluta Books
- Capa
- Escola de Governo Evoluta
Evoluta Books · Coleção Escola de Governo
Araraquara
evoluta.adm.br/ead/da-prefeitura-para-as-manchetes/
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Pinheiro, Aline.
A Boa Notícia Não Chega Sozinha : Como a prefeitura transforma suas ações em pauta, prepara seus porta-vozes e atravessa crises com credibilidade / Aline Pinheiro e Matheus Bernardo Delbon. – 1ª edição. – Araraquara : Evoluta Books, 2026.
(Coleção Escola de Governo)
1. Comunicação pública. 2. Administração municipal. 3. Assessoria de imprensa. 4. Gerenciamento de crise. 5. Media training. 6. Storytelling. I. Delbon, Matheus Bernardo. II. Título.
Para começar
Apresentação
Quem circula pelas prefeituras ouve sempre a mesma queixa: a imprensa só fala mal. O buraco aparece no telejornal, a fila da unidade de pronto atendimento vira manchete, o semáforo quebrado ganha reportagem. Enquanto isso, a creche inaugurada, o programa que mudou a vida de centenas de famílias e o prêmio recebido pela prefeitura passam em branco.
Há uma explicação para isso, e ela não está na má vontade dos jornalistas. A notícia ruim chega à redação sozinha. O cidadão filma o problema e manda pelo canal da emissora. A notícia boa só chega se alguém da prefeitura souber transformá-la em pauta e entregá-la do jeito que o jornalista precisa, no momento certo, para a pessoa certa.
Este livro foi escrito para quem está do lado da gestão: prefeitos, secretários, vereadores, chefes de gabinete, assessores de imprensa e equipes de comunicação de prefeituras e câmaras. Ele nasceu dos cinco episódios do curso Da Prefeitura para as Manchetes, da Escola de Governo da Evoluta, em que Aline Pinheiro, jornalista e coordenadora de pauta em uma emissora de televisão regional, conversa com Matheus Bernardo Delbon sobre como funciona o outro lado do balcão.
A proposta é simples. Comunicação da gestão e imprensa não são lados em competição. Quem trabalha na redação precisa de boas histórias, dados confiáveis, imagens utilizáveis e fontes disponíveis. Quem trabalha na prefeitura tem tudo isso, mas raramente sabe organizar e entregar. Quando os dois lados se entendem, o cidadão ganha informação, o jornalista ganha pauta e a gestão ganha mídia espontânea: cobertura feita por interesse jornalístico, sem compra de espaço.
Os capítulos seguem a ordem do trabalho. Primeiro, a estrutura da equipe de comunicação e o funcionamento das redações. Depois, o que faz uma ação da prefeitura virar notícia. Em seguida, o release, o acompanhamento e a medição de resultados. Os capítulos centrais tratam do gestor diante das câmeras e do gerenciamento de crises. Em seguida, o storytelling, que humaniza políticas públicas e dados técnicos. Os dois capítulos finais são de aplicação: modelos e roteiros prontos para o dia a dia da assessoria e um plano de comunicação para os quatro anos de mandato.
Ao longo do texto, você encontrará alertas jurídicos. A comunicação oficial tem limites: não pode promover pessoalmente autoridades, tem restrições em ano eleitoral e precisa proteger a imagem de crianças e de moradores. Esses cuidados não atrapalham o trabalho; dão segurança a ele.
Os exemplos citados vêm da rotina de redações e prefeituras e aparecem sem o nome de municípios e pessoas. Cada capítulo termina com uma lista de passos que podem ser aplicados já na próxima reunião de pauta. Se a prefeitura não leva a boa notícia à redação, só a notícia ruim vai chegar. Este livro mostra como mudar isso.
Capítulo 1
Comunicar também é governar: a equipe de comunicação
Por que a comunicação profissional é estratégica para a gestão municipal e como organizar uma equipe com funções claras, de qualquer porte.
Objetivos do capítulo
Ao final deste capítulo, você será capaz de:
- explicar por que a comunicação profissional é parte da gestão e da transparência;
- organizar as funções da equipe de comunicação em qualquer porte de prefeitura;
- distinguir o pedido de um jornalista do pedido formal feito pela Lei de Acesso à Informação.
Não basta fazer bem feito: é preciso comunicar. A frase parece óbvia, mas muitas gestões passam quatro anos executando bons projetos sem que a população perceba. Quando chega a hora de prestar contas, o prefeito descobre que o cidadão conhece os problemas da cidade em detalhes e quase nada sabe das soluções.
Comunicação é acesso à informação
A primeira função da comunicação pública é dar acesso à informação. O gestor costuma pensar em transparência como portal da transparência, publicação de contas e cumprimento da Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011). Tudo isso é necessário. Mas o cidadão comum não acompanha o governo pelo portal da transparência. Ele se informa pela imprensa, pelo rádio, pela televisão, pelos portais de notícia.
Por isso a comunicação profissional é estratégica. Ela leva ao cidadão o que está sendo feito, constrói a marca do governo e mostra a direção da gestão. E há um detalhe que muita gente esquece: a imprensa tradicional continua importante. Fala-se muito em redes sociais como se fossem o único canal, mas a reportagem de um veículo independente tem credibilidade que nenhuma postagem oficial alcança.
O cidadão não se informa pelo portal da transparência. Ele se informa pela imprensa.
Uma ponte com o cidadão
A equipe de comunicação faz a ponte entre a gestão e a população. Para isso, precisa estar ligada diretamente ao gestor e alinhada com o que ele quer transmitir. Qual é a mensagem desta gestão? Quais são suas bandeiras? Para quem ela fala? Uma equipe que não sabe responder a essas perguntas produz muito e comunica pouco.
Funções diferentes, pessoas diferentes
A estrutura varia com o porte do município. Há prefeituras com uma única pessoa cuidando de tudo e outras com equipes de vários profissionais, concursados ou em cargos de confiança. Em qualquer caso, as funções precisam estar claras:
- Chefe de gabinete e assessor direto do prefeito têm papéis de coordenação política e administrativa, que não se confundem com a comunicação.
- Assessoria de imprensa cuida do relacionamento com os veículos e produz os textos de divulgação, os chamados releases.
- Comunicação digital cuida das redes sociais, da edição de imagens e da linguagem própria de cada plataforma.
- Assessores por secretaria, em municípios maiores, conhecem a fundo os temas de cada área e filtram o que realmente interessa à imprensa.
A formação também importa. Uma equipe de comunicação reúne, idealmente, jornalistas, profissionais de publicidade e propaganda e de marketing, cada um na sua especialidade. O gestor deve olhar para a equipe e perguntar: quem é melhor no texto? Quem domina as redes sociais? Quem entende de imagem? O jornalista mais experiente em texto escreve o release; o profissional mais familiarizado com as mídias digitais cuida das redes; e assim por diante.
| Função | O que faz | O que não é papel dela |
|---|---|---|
| Assessoria de imprensa | Relacionamento com os veículos, releases, follow-up, resposta a pedidos | Produzir propaganda ou cuidar da agenda política do prefeito |
| Comunicação digital | Redes sociais, edição de imagens, linguagem de cada plataforma | Responder sozinha a crises sem alinhamento com o gabinete |
| Assessores por secretaria | Conhecer os temas da área e filtrar o que interessa à imprensa | Falar em nome do governo sem a coordenação central |
| Chefe de gabinete | Coordenação política e administrativa | Substituir a equipe técnica de comunicação |
Equipe pequena: como dividir o trabalho
Em muitos municípios, a comunicação é feita por uma ou duas pessoas. Isso não impede um trabalho profissional, mas exige escolhas. Uma divisão possível, para uma equipe mínima, é separar o relacionamento com a imprensa (mailing, releases, follow-up, resposta a pedidos) da produção para os canais próprios (redes sociais, site, fotos e vídeos). Quando há uma pessoa só, vale estabelecer uma rotina fixa: um período do dia para a imprensa, outro para as redes, e a reunião de pauta semanal como momento de planejamento.
Com equipe pequena, a prioridade deve ser a qualidade das pautas enviadas, e não a quantidade. Uma boa pauta por semana, bem endereçada e acompanhada, rende mais do que uma enxurrada de comunicados. E as secretarias podem ajudar: cada uma pode indicar um servidor responsável por informar à comunicação as ações, os dados e as histórias da área.
Ficha
- Divisão
- Relacionamento com a imprensa de um lado; canais próprios (redes, site, fotos e vídeos) de outro.
- Rotina
- Um período do dia para a imprensa, outro para as redes; reunião de pauta semanal.
- Prioridade
- Qualidade das pautas enviadas, e não quantidade.
- Apoio
- Um servidor de referência em cada secretaria para informar ações, dados e histórias.
Não é só saber filmar
Um erro comum no início do mandato é montar a equipe com base em uma única habilidade: alguém que filmou bem na campanha, alguém que entende de redes sociais. Comunicação pública exige mais. Exige saber o que é notícia, conhecer a rotina das redações, escrever com técnica jornalística, preparar o porta-voz e responder a pedidos de informação dentro do prazo. A equipe pode ser pequena, mas precisa ser qualificada e saber com quem está falando.
Proativa, não apenas reativa
Uma equipe que só responde a problemas perde o controle da imagem da gestão. A imprensa vai procurar a prefeitura o tempo todo, porque o cidadão manda problemas para a redação e o jornalista tem o dever de ouvir o outro lado. Se a equipe de comunicação só reage, a agenda pública é definida pelas reclamações. Se ela também provoca a imprensa com boas pautas, a gestão passa a ocupar espaço com o que está fazendo.
Planejamento: improvisado ou planejado →
Reativa e improvisada
Apaga incêndios. A agenda pública é definida pelas reclamações.
Reativa e planejada
Responde bem e no prazo, mas não ocupa espaço com o que a gestão faz.
Proativa e improvisada
Envia muito material, com pouco aproveitamento pelas redações.
Proativa e planejada
Pauta própria, mensagem consistente e resposta rápida quando procurada.
Iniciativa: reativa ou proativa →
Responder também é comunicar
Quando o veículo pede posicionamento sobre um problema, a resposta precisa sair dentro do prazo que o jornalista informou, e com o máximo de informação possível. O jornalista costuma formalizar o pedido: onde está o problema, quando começou, quem foi afetado, o que o cidadão está pedindo. A equipe de comunicação deve ter um fluxo para levar esse pedido ao gestor responsável, obter a resposta rapidamente e devolvê-la ao jornalista.
Deixar o jornalista sem resposta é a forma mais rápida de destruir uma relação construída aos poucos. E vale lembrar: quem está do outro lado, no fim, é o cidadão.
| Aspecto | Pedido de jornalista | Pedido de acesso à informação (Lei 12.527/2011) |
|---|---|---|
| Natureza | Relacionamento com a imprensa | Dever legal da administração, válido para qualquer pessoa |
| Canal | Assessoria de imprensa | Serviço de informações ao cidadão (art. 9º, I) |
| Prazo | O prazo da redação, informado pelo jornalista | Acesso imediato à informação disponível; se não for possível, até 20 dias, prorrogáveis por mais 10 com justificativa (art. 11, §§ 1º e 2º) |
| Cuidado | Responder com o máximo de informação, no tempo da redação | Registrar, responder no prazo e fundamentar eventual negativa |
Os dois pedidos podem chegar juntos. Um jornalista pode usar a Lei de Acesso à Informação para obter dados que a assessoria não forneceu. Por isso a equipe de comunicação deve conhecer o fluxo do serviço de informações ao cidadão e conversar com quem o administra.
Reunião de pauta
A peça que organiza tudo é a reunião de pauta. Nela, a equipe de comunicação e o gabinete definem o que é notícia dentro do planejamento de governo, organizado por temas: mobilidade, saúde, educação, obras. Se a cidade está em obras e o trânsito está travado, por exemplo, a reunião pode decidir divulgar o cronograma das obras e as rotas alternativas. É uma matéria de serviço que interessa ao cidadão e que, ao mesmo tempo, mostra que a prefeitura está explicando o que faz.
- 1Registrar o pedido e o prazo
- 2Acionar a secretaria responsável
- 3Levantar os fatos
- 4Escolher o formato: nota, vídeo ou entrevista
- 5Validar com o gestor
- 6Enviar no prazo
Em resumo
- A comunicação profissional leva ao cidadão o que a gestão faz; o cidadão se informa pela imprensa, e não pelo portal da transparência.
- As funções precisam estar claras: imprensa, digital, assessores por secretaria e coordenação política não se confundem.
- Com equipe pequena, priorize poucas pautas bem endereçadas e peça um servidor de referência a cada secretaria.
- A Lei de Acesso à Informação garante acesso imediato ou resposta em até 20 dias, prorrogáveis por mais 10 com justificativa (art. 11).
Para aplicar no seu município
- Se a equipe é pequena, separe o relacionamento com a imprensa da produção para os canais próprios e defina uma rotina fixa.
- Peça a cada secretaria um servidor de referência para informar ações, dados e histórias à comunicação.
- Defina por escrito quem faz o quê: relacionamento com a imprensa, texto, vídeo e redes sociais.
- Confirme que a equipe de comunicação tem acesso direto ao gestor e conhece as prioridades do governo.
- Institua uma reunião de pauta semanal com o gabinete e as secretarias.
- Crie um fluxo para responder pedidos da imprensa dentro do prazo, com opção de resposta em vídeo.
- Avalie a formação da equipe e distribua as tarefas conforme as habilidades de cada profissional.
Para refletir
- Em que quadrante da matriz a comunicação da sua prefeitura está hoje?
- Quem responde, e em quanto tempo, quando um jornalista pede posicionamento?
- A assessoria de imprensa conversa com o serviço de informações ao cidadão?
Exercícios de fixação
Com uma equipe de comunicação de uma só pessoa, a prioridade deve ser:
- a) enviar o maior número possível de releases
- b) poucas pautas de qualidade, bem endereçadas e acompanhadas
- c) cuidar só das redes sociais
- d) responder apenas a pedidos da imprensa
Pela Lei de Acesso à Informação, quando não é possível conceder acesso imediato, o prazo de resposta é de:
- a) 5 dias
- b) até 20 dias, prorrogáveis por mais 10 com justificativa
- c) 60 dias
- d) não há prazo
Uma comunicação reativa e improvisada tende a:
- a) definir a agenda pública com boas pautas
- b) deixar que a agenda pública seja definida pelas reclamações
- c) eliminar crises
- d) aumentar a mídia espontânea
Qual é a peça que organiza o trabalho da comunicação com o gabinete?
- a) A clipagem
- b) A reunião de pauta
- c) O mailing
- d) A coletiva
O gabarito comentado está no livro completo, para alunos matriculados.
Continue a leitura
Os próximos 8 capítulos são para alunos do curso
A matrícula é gratuita e libera o livro completo, com gabarito dos exercícios, glossário, referências e índice, além das aulas em vídeo, dos materiais de estudo e do certificado.
- 2Por dentro da redação: quem decide, o que precisa e quandoComo funcionam as redações enxutas de hoje, o que cada veículo precisa e como montar um mailing que funcione.
- 3O que vira notícia: do problema resolvido ao personagemPor que a cerimônia não é notícia, como encontrar o problema público por trás de cada ação e quais elementos transformam uma pauta comum em matéria.
- 4Release, follow-up e clipagem: o ciclo completo de uma pautaComo escrever e distribuir um release, acompanhar o jornalista, acertar o momento do envio, adaptar o material a cada veículo e medir resultados.
- 5O gestor diante das câmeras: media training na gestão públicaPor que o porta-voz deve ser o próprio gestor, o que se treina, como se preparar para entrevistas ao vivo, gravadas e coletivas e como manter a autenticidade.
- 6Quando a crise chega: gerenciamento de crise na comunicação públicaComo avaliar a proporção de uma crise, montar a equipe e os protocolos, controlar a narrativa, enfrentar as redes sociais e aprender com o pós-crise.
- 7Storytelling: histórias que humanizam a gestãoComo usar histórias reais para dar sentido a medidas técnicas e dados, encontrar pautas na rotina da gestão e cuidar dos personagens.
- 8Modelos e roteiros para o dia a dia da assessoriaEstruturas prontas para release, follow-up, briefing de entrevista, resposta à imprensa, pós-release, protocolo de crise, termo de autorização, clipagem, coletiva virtual e conversa com personagens.
- 9O plano de comunicação de um mandatoComo organizar a comunicação da gestão ao longo dos quatro anos: diagnóstico, mensagem, calendário, rotina semanal, metas, ano eleitoral e transição.
A Boa Notícia Não Chega Sozinha
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