Se o PAD fosse um livro, o relatório final seria o último capítulo: o texto em que a comissão reúne tudo que apurou, enfrenta os argumentos da defesa e diz, com fundamentação, se o servidor é responsável ou não. É também o documento que a autoridade julgadora mais lê. Um relatório claro e bem fundamentado facilita uma decisão justa; um relatório confuso ou parcial abre caminho para a anulação.
O que é relatório final do PAD
Depois de apreciar a defesa, a comissão elabora relatório minucioso, resumindo as peças principais dos autos e mencionando as provas em que se baseou para formar a convicção. O relatório é sempre conclusivo quanto à inocência ou à responsabilidade do servidor (Lei 8.112/1990, art. 165, § 1º). Não é decisão: a comissão relata, e quem decide é a autoridade julgadora.
Conteúdo
- Resumo dos fatos e da instrução.
- Análise da defesa, ponto a ponto.
- Conclusão fundamentada sobre cada imputação.
- Em caso de responsabilidade, o dispositivo legal ou regulamentar transgredido e as circunstâncias agravantes ou atenuantes (§ 2º).
O processo, com o relatório, é remetido à autoridade que determinou a instauração, para julgamento (art. 166). A comissão não aplica a pena; apenas relata e pode sugerir.
Como estruturar o relatório
- Identificação: processo, autoridade instauradora, comissão, servidor indiciado.
- Síntese do processo: origem, portaria, atos principais, datas, prorrogações.
- Fatos e provas: o que ficou comprovado, o que não ficou, e por quais meios.
- Defesa: resumo dos argumentos apresentados e resposta da comissão a cada um.
- Enquadramento: quais deveres ou proibições foram violados, ou por que não houve violação.
- Circunstâncias: atenuantes, agravantes, antecedentes, danos.
- Conclusão: inocência ou responsabilidade, com sugestão fundamentada de penalidade quando for o caso.
Exemplo ilustrativo: imagine uma comissão que, depois de ouvir testemunhas e examinar documentos, conclua que uma das três imputações não foi comprovada, e que as outras duas foram. O relatório explica, para cada imputação, quais provas foram decisivas, responde às teses da defesa, indica os deveres infringidos e sugere a penalidade, justificando a escolha com base na gravidade e nos antecedentes. A autoridade pode acolher, agravar, abrandar ou absolver, desde que motive.
O que acontece depois
O processo segue para a autoridade julgadora, que tem prazo para decidir. No julgamento, acata o relatório, salvo quando contrário às provas dos autos. Veja julgamento do processo disciplinar. Se a comissão concluiu pela inocência, a autoridade arquiva o processo, salvo se o relatório for flagrantemente contrário à prova.
Diferença entre relatório final e indiciamento
O indiciamento é a acusação formal, feita antes da defesa, com a descrição dos fatos imputados. O relatório final é a conclusão, feita depois da defesa, que avalia se as imputações se comprovaram. Os dois documentos são do mesmo PAD, mas têm funções distintas, e o segundo não deve trazer imputação nova.
Erros comuns
- Relatório genérico, que não enfrenta os argumentos da defesa.
- Conclusão sem relação com as provas descritas.
- Incluir fatos que não constaram do indiciamento.
- Omitir a análise de provas favoráveis ao servidor.
- Sugerir penalidade sem justificar gravidade, danos e antecedentes.
- Deixar de indicar os dispositivos legais transgredidos.
- Entregar o relatório fora do prazo, sem registro de prorrogação.
Perguntas práticas
A autoridade é obrigada a seguir o relatório? Não. No estatuto federal, a decisão acata o relatório, salvo quando contrário às provas dos autos. Nesse caso, a autoridade pode, motivadamente, agravar, abrandar ou isentar. A divergência precisa ser justificada.
O relatório pode propor penalidade? Pode sugerir, indicando dispositivo legal e circunstâncias. A aplicação cabe à autoridade competente, que decide com base em todo o conjunto do processo.
Linguagem e organização do texto
O relatório será lido por pessoas com formações diversas: a autoridade julgadora, assessores jurídicos, o servidor, seu advogado e, se houver, um juiz. Por isso, vale usar linguagem clara, frases curtas e parágrafos organizados por assunto, citar as folhas dos autos em que cada prova se encontra e evitar adjetivos. Quando houver várias imputações, é útil tratar cada uma em um tópico próprio, com subtítulos: fato, prova, defesa, conclusão. Essa organização ajuda o leitor a localizar rapidamente o raciocínio da comissão e reduz o risco de que algum ponto seja ignorado.
Cuidados com a imparcialidade
O relatório não é peça de acusação nem de defesa: é a análise isenta de todo o conjunto probatório. A comissão deve registrar provas que favoreçam o servidor com a mesma atenção que dá às que o prejudicam. Se houver dúvida razoável sobre a autoria ou a materialidade, o relatório deve dizê-lo claramente, porque a dúvida beneficia o acusado. Relatórios que omitem provas favoráveis são frequentemente anulados, e comprometem a credibilidade de todo o processo.
Prazo e prorrogação
O relatório deve ser entregue dentro do prazo do processo, que, no estatuto federal, é de 60 dias prorrogáveis por igual período para a comissão concluir seus trabalhos. Prorrogações devem ser formalizadas por ato da autoridade, com motivo. Atrasos sem registro dão margem a questionamentos e, sobretudo, aumentam o risco de prescrição.



