A cocriação é o processo de desenhar políticas, serviços e soluções públicas junto com as pessoas que os usam ou que serão afetadas por eles, em oficinas, consultas, testes e grupos de trabalho, em vez de apenas para elas. O princípio é simples: quem vive o problema conhece detalhes que o gestor e o técnico não percebem. Incluir usuários, servidores da linha de frente, especialistas, empresas e organizações sociais desde o início aumenta a chance de a solução ser compreendida, usada e sustentada. A cocriação é um dos pilares do design de serviços e das práticas de inovação aberta no governo.
Cocriação, consulta e participação
- Consulta pública: a administração apresenta uma proposta pronta e recebe comentários. A decisão permanece com o governo.
- Participação social: conjunto amplo de mecanismos como conselhos, conferências e audiências (veja participação social).
- Cocriação: os participantes ajudam a definir o problema, gerar ideias, desenhar e testar a solução. A construção é compartilhada.
Os três não se excluem; a cocriação é uma forma mais profunda e interativa de participação, geralmente em formato de oficinas e prototipagem.
Quando usar
- Na revisão de um serviço com muitas reclamações (atendimento, matrícula, agendamento).
- No desenho de um novo sistema ou aplicativo.
- Em mudanças de rotina que afetam servidores, como reorganização de fluxos.
- Na formulação de políticas para grupos específicos, como juventude, pessoas com deficiência ou comunidades tradicionais.
- Na elaboração de planos setoriais e do plano diretor, em conjunto com a comunidade.
Passo a passo de uma oficina de cocriação
- Defina o desafio em uma pergunta clara: “Como facilitar o acesso à matrícula para famílias que trabalham em horário comercial?”
- Escolha os participantes: usuários reais, servidores que executam o serviço, gestores e, se for o caso, representantes de entidades. Busque diversidade de perfis.
- Prepare o ambiente: local acessível, horário viável, materiais simples, linguagem acessível, facilitação neutra.
- Compartilhe o diagnóstico: dados, relatos, mapas de jornada (jornada do usuário).
- Gere ideias com técnicas de design thinking: brainstorming, mapas de empatia, priorização coletiva.
- Prototipe: esboços de formulário, roteiro de atendimento, tela de aplicativo, encenação do serviço.
- Teste com usuários e colete feedback.
- Devolva os resultados aos participantes: o que foi adotado, o que não foi e por quê.
Um exemplo hipotético: para reformular o atendimento em uma unidade de saúde, a prefeitura reúne moradores, agentes comunitários, recepcionistas e enfermeiros em duas oficinas. Os moradores relatam confusão com filas e horários, os recepcionistas explicam as limitações do sistema, e juntos desenham um novo fluxo de acolhimento, testado por duas semanas e depois ajustado.
Benefícios
- Serviços mais aderentes às necessidades reais.
- Redução de resistências, pois as pessoas se sentem parte da solução.
- Identificação precoce de problemas e custos de correção menores.
- Mais legitimidade e confiança na administração.
- Fortalecimento da cultura de inovação e do trabalho em rede.
Cuidados
A cocriação exige honestidade sobre os limites. Se o orçamento, a lei ou a decisão política já fixaram parâmetros, deixe isso claro no início, para evitar frustração. Garanta que os participantes tenham voz de fato, e que grupos que costumam ficar de fora, como pessoas idosas, com deficiência e moradores de áreas periféricas, sejam convidados com estratégias ativas. Assegure o tratamento adequado de dados pessoais coletados nas atividades. E respeite a competência legal: a decisão final sobre atos administrativos permanece com quem a lei atribui, mas deve ser motivada à luz das contribuições.
Erros comuns
- Convocar a oficina para validar uma decisão já tomada.
- Reunir apenas pessoas já ligadas ao governo.
- Usar linguagem técnica que exclui os participantes.
- Não devolver os resultados nem explicar o que foi adotado.
- Realizar apenas um evento, sem continuidade ou teste.
- Gerar expectativas que o orçamento ou a lei não permitem.
Cocriação com servidores
Boa parte das mudanças públicas falha por resistência interna. Quando os servidores participam do desenho, têm mais chances de adotar a nova rotina. Oficinas internas permitem que quem atende o público e opera sistemas aponte entraves que a chefia desconhece. Um cuidado importante é garantir um ambiente seguro: as pessoas só falam abertamente se souberem que críticas não terão retaliação. Vale registrar as contribuições e mostrar quais delas viraram ação, o que reforça a confiança e o engajamento.
Cocriação digital
Ferramentas on-line, como enquetes, murais colaborativos e plataformas de consulta, permitem ampliar o alcance, sobretudo para quem não pode comparecer a eventos presenciais. O desafio é a inclusão: mantenha também canais presenciais e adapte a linguagem. As contribuições recebidas devem ser sistematizadas e devolvidas, com transparência sobre o tratamento dado a cada uma.
Como avaliar o resultado
Avalie se a solução cocriada foi adotada, se melhorou indicadores do serviço (prazo, satisfação, retornos) e se os participantes perceberam que foram ouvidos. Registre os aprendizados do processo para aprimorar as próximas oficinas. Uma prática simples é pedir, ao final de cada atividade, que os participantes digam uma coisa que funcionou e uma que pode melhorar.



