A gestão de riscos é o processo contínuo de identificar, avaliar e tratar eventos incertos que possam afetar o alcance dos objetivos de uma organização, para dar segurança razoável de que as metas serão cumpridas. Risco, nesse contexto, não é apenas ameaça: é a possibilidade de um evento afetar os objetivos, e é medido pela combinação de probabilidade e impacto. Gerir riscos é antecipar o problema, decidir o que fazer a respeito e acompanhar o resultado.
Base normativa
O Decreto nº 9.203/2017 define gestão de riscos como processo de natureza permanente, estabelecido, direcionado e monitorado pela alta administração, que contempla as atividades de identificar, avaliar e gerenciar potenciais eventos que possam afetar a organização, destinado a fornecer segurança razoável quanto à realização de seus objetivos, e determina que a alta administração mantenha e aprimore sistema de gestão de riscos e controles internos. A Lei nº 14.133/2021 coloca a gestão de riscos no centro das contratações: o parágrafo único do art. 11 atribui à alta administração a responsabilidade pela governança das contratações, com processos e estruturas de gestão de riscos e controles internos, e o art. 169 estabelece que as contratações públicas se submetam a práticas contínuas e permanentes de gestão de riscos e de controle preventivo, inclusive com recursos de tecnologia da informação, e organiza o controle em três linhas de defesa (veja Modelo das Três Linhas). Municípios aplicam a lei federal de licitações e podem, além disso, instituir sua política por decreto.
Para que serve
- Antecipar problemas e evitar surpresas e prejuízos.
- Priorizar o uso de recursos limitados de controle nas áreas de maior exposição.
- Apoiar o planejamento das contratações e a elaboração da matriz de alocação de riscos.
- Melhorar a tomada de decisão, ao tornar explícitas as incertezas.
- Demonstrar aos órgãos de controle que a administração age de forma preventiva.
Etapas do processo
- Definir o contexto e os objetivos. Só é possível falar em risco em relação a um objetivo, como entregar um serviço no prazo ou executar uma obra no orçamento.
- Identificar os riscos. Em oficinas com as equipes, listar eventos que podem impedir o objetivo, com suas causas e consequências.
- Analisar e avaliar. Estimar probabilidade e impacto de cada risco e classificá-lo, em geral em uma matriz de riscos.
- Comparar com o apetite. Verificar se o nível do risco está dentro do apetite a risco definido pela liderança.
- Tratar. Escolher a resposta: evitar a atividade, reduzir (com controles), compartilhar (por seguro, contrato ou parceria) ou aceitar o risco, com justificativa.
- Monitorar e comunicar. Acompanhar indicadores, revisar o mapa periodicamente e reportar à alta administração.
Um exemplo hipotético: uma secretaria de obras identifica o risco de paralisação de uma obra por falta de fiscalização adequada. Probabilidade e impacto são classificados como altos. A resposta é reduzir o risco, designando fiscais capacitados, criando checklist de medição e definindo reunião quinzenal de acompanhamento. O responsável pelo risco informa mensalmente se os controles estão funcionando.
Padrões e referências
Normas como a ISO 31000 e o referencial COSO ERM (veja ISO 31000 e COSO) oferecem princípios e processos que podem ser adaptados ao tamanho da prefeitura. O TCU também publica material de orientação sobre gestão de riscos. A metodologia deve ser proporcional: um município pequeno pode começar com uma planilha e dois ou três processos críticos.
Gestão de riscos e controles internos
Os riscos identificados geram a necessidade de controles; os controles, por sua vez, reduzem a probabilidade ou o impacto. Por isso, as duas atividades são complementares (veja controles internos). A gestão de riscos responde à pergunta “o que pode dar errado?”, e os controles, à pergunta “o que fazemos para evitar ou detectar?”.
Erros comuns
- Tratar a gestão de riscos como planilha preenchida uma única vez.
- Listar riscos genéricos, sem relação com objetivos.
- Não nomear responsável por cada risco e por cada ação de tratamento.
- Ignorar o apetite a risco definido pela liderança.
- Confundir risco (algo que pode acontecer) com problema (algo que já aconteceu).
- Não envolver a alta administração, o que enfraquece a priorização.
Papéis na gestão de riscos
Para que a gestão de riscos funcione, os papéis precisam estar claros. A alta administração define a política e o apetite, e cobra resultados. Os gestores dos processos são donos dos riscos: identificam, avaliam e tratam os riscos de suas áreas. A unidade de controle interno ou de riscos oferece método, consolida os mapas e monitora. A auditoria interna avalia de forma independente se o sistema funciona. Essa divisão se inspira no Modelo das Três Linhas, e a Lei nº 14.133/2021 adotou, para as contratações, organização semelhante em linhas de defesa (art. 169).
Indicadores de maturidade
Algumas perguntas ajudam a medir a maturidade: existe política aprovada e conhecida? Os riscos dos processos críticos estão mapeados e atualizados? Cada risco tem dono, resposta e prazo? A alta administração recebe relatórios periódicos? Os riscos efetivamente ocorridos são analisados para aprender e corrigir o mapa? Quanto mais respostas positivas, mais madura a gestão de riscos. O avanço deve ser gradual: é melhor ter dois processos bem gerenciados que vinte mapas abandonados.



